Acreditava-o encerrado, acreditava mesmo ser este um sinal do amadurecimento da democracia portuguesa, da nossa europeização ou do europeísmo; de qualquer modo: um (motivo de) orgulho. Parecia-me perdida algures entre a Assembleia Constituinte (75/76) e a revisão constitucional de 82, admitia que tivesse sido convidada especial da cena política portuguesa, numa rara e derradeira aparição durante o surto de privatizações dos anos 90, mas a tópica “instala-se” ou “infecta”, hoje, a campanha política portuguesa… um claro retrocesso, pois que não tem actualidade nem releva para os problemas dos portugueses.
São as questões da iniciativa privada, de um governo mais ou menos forte, de mais ou menos governo, numa versão americanizada, que entram, agora, pelas casas dentro via portas. Paulo Portas, claro. Aliás, Paulo Portas havia já tecido largos comentários sobre o mal do nosso país, ou seja, a nossa Constituição.
Hoje despida de qualquer ideologia que não seja a protecção dos direitos de todos os cidadãos (ideário básico e fundamental – fundamento – de qualquer democracia assim digna de ser chamada), a nossa Constituição parece ser o maior entrave ao desenvolvimento do país… é por causa da Constituição que o défice sobe, que os processos se acumulam nos tribunais, que a vida privada dos políticos é devassada, que as empresas não pagam impostos… tudo isto faz a nossa Constituição segundo o Ministro Da Defesa. Aconselho mesmo o senhor Ministro a fundamentar a sua opinião com os artigos da Lei Fundamental: prometo-lhe que ali nada disso encontra.
Mas não encontrando nisso satisfação, ou como não tivesse encontrado nisso satisfação, o senhor Ministro segue, em comício, para outros temas, querendo abrir mais feridas na sociedade portuguesa, esperando, com isso, ganhar votos daqueles que ricos, querem ser intocáveis, daqueles que pobres, não percebem o veneno que lhes dão.
Acreditávamos nós, como ficou dito, que o problema do peso do Estado estava arrumado, na sua vertente liberal: Mais ou menos Estado. Mas ele renasce por má importação americana, fazendo nascer o debate, sem dúvida, emulando as “tristes” campanhas americanas entre democratas e republicanos. Ora o “peso do Estado” que devemos discutir não é a intervenção do Estado na vida económica do país, o verdadeiro problema do peso do Estado está na desordem da Administração Pública, no número infindável de funcionários, institutos públicos… assim como os órgãos de cúpula, também desordem: secretários de Estado, Ministros e primeiro-ministro. É sintomático da desordem que se passa em baixo, na base da administração, a dita “trapalhada” que vê no órgão máximo da Administração, o Governo. Os dossiers mudam de mão, de um Ministro para o outro porque aquele se portou mal, conferências de impressa de ministros que são desmarcadas por ordem do primeiro-ministro até a chegar à hora da vingança (ver Political Scientists V), secretárias de Estado que são do melhor que há na Defesa e vão parar à Cultura… sim… e por esta altura sabemos que o senhor Portas é ministro dos assuntos do mar, mas in illo tempore, nem ele sabia!
Este é o espelho da Administração Pública e da sua desordem. Mas isto vem de longe. E não se escapa da culpa, que o atinge em cheio, o PS.
É nisto que se perde dinheiro, é isto que atrofia o investimento, a economia, a saúde, a segurança social… não é, com certeza, se há Estado a mais ou estado a menos. É nos países com maior Estado que há menos injustiças. A direita que propõe o Estado reduzido, uma vez no poder, quer ver sempre o seu poder triplicar…
Qualquer pessoa admite e quer iniciativa privada e não há, hodiernamente, partido algum no espectro político que queira fazer tamanha ablação às garantias dos portugueses. Ninguém quer menos ricos, quer-se mais gente rica, quer-se um Estado que, tanto quanto possível, ajude todos os seus cidadãos. Querem-se muitas empresas e muitas empresas a pagar impostsos. Nada disto tem que ver com a iniciativa privada... na Europa, mesmo Portugal que sempre aparece na cauda, ultrapassámos este problema.
Temos, para nós, que são enganadoras as palavras do candidato Paulo Portas: como não pode discutir o que interessa ao País, pois teria de invocar a “5ª Emenda” (como gostam tanto da América) para não se ferir a si nem ao Governo & PSD, inventa estes novos argumentos patéticos. Importa ideias, com defeito, made in U.S.A.
Fujam, fujam que vêem aí os comunas, as nacionalizações, o papão.
É o fim do mundo. Ou então, são só outras eleições. Sempre, mais do mesmo.